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Lua-de-mel

Lua-de-mel – O Destino

Cartagena das Índias, na Colômbia? Que inusitado! Mas por que vocês vão para esse lugar?

Cartagena é uma cidade de pouco mais de um milhão de habitantes fundada em 1533. Nos séculos XVII e XVIII foi fortificada para proteção contra corsários e invasores. O Tribunal do Santo Ofício da Inquisição se estabeleceu por lá em 1610. Tudo isso em pleno Caribe colombiano, mas longe dos agitos de outras ilhas da região caribenha. Repleta de história, a cidade foi declarada pela UNESCO Patrimônio Cultural da Humanidade em 1984.

Se esses motivos não são suficientes para responder à pergunta de por que visitar Cartagena, somamos a eles o fato de lá estar localizada a casa do escritor Gabriel García Márquez. Para nosso imaginário, isso é quase como conhecer a mítica Macondo…

Viajaremos entre os dias 10 e 20 de abril. Isso quer dizer que a partir do dia 21 (que é feriado) esperaremos vocês na nossa casa para verem as fotos e ouvirem as histórias da viagem. Certamente, todo mundo já saberá o caminho…

Por Teofilo Tostes

A pré-viagem

Tudo suspenso, em estado de espera e expectativa. Parece que o mundo inteiro se prepara para a nossa partida. Cartagena das Índias nos aguarda.

A pré-viagem

Por Teofilo Tostes

A viagem

Os potes vazios de um almoço “pasteurizado”da sky-chef ocupam a área quase toda da mesinha à minha frente. Agora, dentro de algumas (imprecisas) horas, desembarcamos em Bogotá.

Depois de preencher alguma ficha que deverei entregar no setor de emigração (ou imigração? depende do ponto de vista) na Colômbia, começo a imaginar supostos interrogatórios em língua estrangeira, num cenário kafkaniano.

- ¿Como dos mil dolares?

Essas ideias me vieram em contraste com a facilidade que foi o embarque. As demoras de mais de uma hora na PF se resumiram a cinco minutos atravessando cordões vazios de fila e protocolar a entrega de documentos. E a insulina? Receitas? Laudos médicos? Ninguém perguntou.

- Estamos com insulina na mala de mão!

Era como se disséssemos que estamos com dinheiro no bolso. Tudo extremamente simples e rápido. Assim, fica a expectativa de que talvez as filas, os interrogatórios, as dez mil conferências nos papéis fiquem para Bogotá. Menos mal, pois chegar quase sempre é mais simples do que partir.

Agora, fica a espera. E essa vista na janela do avião. Uma amplidão sem fim. Entre mim e a janela, meu amor. Um amor sem fim…

Viagem

Por Teofilo Tostes

A primeira chegada

Durante a viagem, houve um instante em que me veio forte e nítida a figura do andarilho. Essa figura me veio no interior de uma indagação. Lembrei-me de ter lido, não imagino onde, que não importa para onde estejamos indo, estamos sempre indo em direção à nossa casa. A forma exata da frase se foi, junto com a lembrança do lugar em que a li. Mas a ideia é essa, resumidamente. Em seguida me assaltou a questão: onde é a casa do andarilho, para onde supostamente ele sempre estaria indo (ou de onde ele sempre estaria fugindo, embora a fuga seja uma forma avessa de busca)?

Essa figura que me surgiu lembrou-me de minha (pouca) vocação para cosmopolita. E a chegada na Colômbia veio explicitar, a cada momento, isso: meu jeito quase provinciano, minha atenção maior do que minha expressão, o apego à perfeição no dizer.

Essa perfeição é impossível aqui. Estou, nessa viagem, pela primeira vez, desterrado, exilado de meu idioma, a minha pátria. Em contrapartida, na ausência da possibilidade dessa perfeição, descubro que ainda assim é possível entender o derredor e – o mais incrível – me fazer entender. E dos ruídos vários, se produzem memórias (turvas, engraçadas, imprecisas…).

Com esses olhos de exílio, vejo Bogotá uma cidade em construção – em reconstrução, sendo mais preciso, em relação ao contexto de se afirmar hoje distante da generalizada violência que se sabia da Colômbia. Em seus bem mais de quatrocentos anos, é provável que essa cidade tenha se reconstruído vezes incontáveis. As paredes do magnífico hotel que me abriga, cercado por tanta pedra secular, testemunham essa reconstrução.

Amanhã: Cartagena. Meu amor dorme. Vou seguir-lhe o exemplo, afinal, tive hoje somente a primeira chegada.

Primeira chegada

BOGOTÁ, dia 1

por Fabiana Turci

primeira impressão: é uma cidade extremamente agressiva. os policiais, de fardas do exército e grandes metralhadoras – que vão das virilhas até o peito – só corroboram o aspecto belicoso que se sente nas ruas. o trânsito caótico, cada um brigando por um pequeno espaço de asfalto (que muito está intransitável, em uma reforma mais caótica ainda). o domingo vazio e cinzento relembra aqueles em Florianópolis – mas a cidade é definitivamente outra. talvez a altitude e o frio deem um aspecto mais desolador para a cena interior. mas: pasme! muito me é tirado quando sou proibida de fumar em minha própria habitação. para este arroubo, deveria pagar 150 mil pesos – porque, afinal, dinheiro resolve tudo? fadada a la calle, os olhos cruzavam com os meus, na noite, parecendo apontar a minha extrema condição de estrangeira – porque furtada de minha possibilidade de intimidade. mas (será) que gostaria de blend in? (sinto que nem em minha casa – minha cidade? meu país? – isso se dá). ao entrar no quarto por la noche em definitivo, a síntese: a segurança de sair do caos, da luta diária da rua, mas com o gesto (dos mais íntimos) deixado do lado de fora. e tão desejosa de amor, ainda que, apaguei medo e agressividade entre lençóis. desconfio que entenda mais dos desejos do amor do que dos meus próprios vícios. o sono é a vigília da inconsciência.

ainda BOGOTÁ, dia 2

por Fabiana Turci

o transfer até o aeroporto corrobora a sensação primeira. por que esse caos me incomoda tanto? impressão leve e audaciosa: o governo se preocupou tanto em botar a polícia na rua que esqueceu por completo de regulamentar o trânsito? o motorista segue calado, e parece que se pode ouvir a tensão latente da cidade. errei as coordenadas e fomos para em outro aeroporto. um pouco providencial: saio de Bogotá com uma nova impressão das pessoas que aqui habitam, tão cordiais no trato e nas ajudas. já no embarque, mais um ponto contra: perdi todos os meus isqueiros no raio-x. se eu vim do Brasil até a Colômbia com todos eles, minha filha, o que é que eu vou fazer agora, a caminho do Caribe? Bogotá – suas políticas, mais que suas gentes – está tornando difícil o meu sentir bem. chegarei a Cartagena munida de um casaco de frio, duas necessaires, três guias de viagens, tudo na mão, já que dois quilos sobresalentes da bagagem nos impossibilitavam de embarcar – sem pagar algo, claro! nem simpatia, muito menos a sedutora história de que estamos em luna-de-miel foi capaz de demover do posto qualquer atendente. mais esta rigidez, que parece tão antagônica com todo o caos que rege esta cidade.

insisto em falar tempo todo sobre as minhas impressões: menos análise e mais sentir. quando leio o diário do Theo, vem essa sensação exquisita: de que ele é capaz de se fazer todo acabado. capaz de se colocar pronto diante de tudo, enquanto eu me exponho demasiado em minha permanente (re)construção. o que me absurda é que ele consiga a síntese perfeita entre o relato e o sentir – ou melhor, que ele consiga o relato a partir do sentir (tudo se resume no olhar), mas sem perder de vista o neutro. descubro, por exemplo, na escrita dele, a forma exata da minha sensação inominada quando o vejo tentando se comunicar. em três bem escolhidas palavras, exatamente em seus lugares. quanto a mim, sinto como se rodeasse infinito o neutro, buscando-o, pero sem conseguir nunca tocá-lo. em tempo: enquanto escrevo, um casal na mesa em frente, durante o café da manhã. ele, um gringo robusto, loiro e (já) vermelhíssimo de sol, portando lacoste cor-de-rosa e bermuda bege que só salientam o ardido da pele. e ela, latino-americana, ou diretamente saída de um filme de Almodovar – típica hermana que se deu bem e ainda não sabe se portar em cima da pilha de dinheiro, sentando-se com pernas de índio. os dois leem jornais, tendo duas paredes de concreto entre eles, com o abismo no meio. o que me remete: entre eu e Theo, há convergência, partilha. do que sou incapaz, ele pode falar pela minha boca.

por Teofilo Tostes

Viagem. Espera.

Talvez nesta manhã tenhamos sabido muito mais sobre Bogotá do que no dia anterior. E a impressão que ficou, agora que estamos à caminho do destino de nossa viagem, é bem variada.

Sobre a cidade em si, parece uma cidade em luta constante contra o caos – o caos inominado que teima em irromper em vários detalhes quotidianos, como a disputa entre pedestres e carros nas ruas, ou as obras presentes em quase todas as vias da cidade.

Sobre a população, fica a impressão de serem, em geral, muito solícitos e corteses. Um “contratempo” nos obrigou a contar com a ajuda e pedir informações a pessoas fora do serviço do hotel. No hotel, por mais gentis que fossem todos, não se sabe até que ponto toda essa gentileza seja “protocolar”, ou própria do ofício. Mas hoje pela manhã, por conta de algum ruído na comunicação entre nossas línguas – próximas, porém distintas – o motorista do hotel deixou-nos num outro aeroporto distinto do “El Dorado”, exclusivo – acho – da ponte aérea da Avianca. Com isso, tivemos que contar com informações, primeiro de um policial, que nos indicou um local em que poderíamos tomar um ônibus – gratuito – até o outro terminal. Depois, das próprias pessoas no ônibus, que nos indicaram o ponto em que deveríamos descer, além de nos auxiliarem a embarcar e desembarcar com nossas malas.

Nossas pequenas aventuras não terminaram ali. Chegando no aeroporto, descobrimos que nossa bagagem estava com excesso de peso. Com isso, tivemos que descobrir formas de retirar quase dois quilos de cada mala, transferindo esse peso para nossa – pouca – bagagem de mão. Tudo isso no meio do check-in.

Por fim, numa última pequena adversidade, a Fabi perdeu todos os seus isqueiros. E eu fui indagado por conta de suas bijuterias que vão comigo, em minha mochila. (aqui, a mulher toma partido do relato, para dizer que dias antes de embarcarmos, sonhei que a minha mala havia extraviado. de tudo o que havia dentro, o que fiquei realmente perturbada por perder foram as minhas bijuterias. assim que, acordada do susto, resolvi que anéis, pulseiras, colares e brincos não seriam despachados, não se separariam da gente, mesmo que causasse… bem, esses constrangimentos).

Tudo isso faz com que seja grande o desejo de chegar logo à Cartagena, para que possamos ficar mais de uma semana sem nos preocuparmos com novas partidas. Novas impressões e outros relatos, já escritos sob a tranquilidade de uma maior permanência, serão, em breve, aqui grafados. Por agora, preparo-me para mais uma vez me colocar em trânsito!

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